Preciso de férias.

Há mais de um ano que não tenho uma semana de férias. Achei que não precisava, que não fazia mal, que podia perfeitamente aguentar-me com uns dias aqui e acolá e que podia esperar calmamente pela entregue da tese do Tó para depois calmamente tirar férias.

Sim, enganei-me.

Há quase dois anos que não durmo uma noite seguida. A altura é péssima para férias no trabalho agora que, todos frescos das férias, estão cheeeeiiionhos de ideias e coisas para fazer. E... se calhar isto é que significa chegar à casa dos 30. Na verdade estou a dar o tilt.

A minha cabeça está pelas ruas da amargura. Eu, que me lembro sempre de tudo, esqueço-me de coisas que fiz de manhã. O meu querido raciocínio rápido, parece uma tartaruga doente. Por vezes preciso que voltem a repetir coisas porque nem sinto consigo processar o que me dizem. E o multitasking já está em coma há meses. Faço muito mais asneiras por distração do que as que me estão inscritas no ADN. Ou então faço todas as que lá estão porque não as consigo contrariar. E têm sido bastantes. Estou mais irritada, mais ofendida. Irrito-me porque quando cheguei a um espaço público onde já estavam 5 pessoas e disse "Bom dia!", ninguém respondeu. Irrito-me porque há gente alucinada que imagina os transportes públicos portugueses como aquilo que viu num filme indiano e decidir expor ideias estúpidas. Irrito-me porque as autárquicas parecem um circo e nem sei em quem votar no Domingo. Irrita-me ouvir pessoas a dizer "eu não vou votar, também ninguém vota em mim" (a sério?). Irrito-me porque demoro 3h a fazer o que normalmente faria em 1h e os dias não podem ser desaproveitados assim. Irrito-me porque não tenho vontade de ir ao ginásio. Irrito-me porque o meu corpo me pede para ir ao ginásio e eu não ouço. Irrito-me porque só quero comer porcarias. Irrito-me por estar irritada e porque eu não sou assim.
Esta post não serve absoultamente para nada a não ser para me lembrar a mim mesma que... preciso de parar e que nunca mais poderei ter esta brilhante ideia de achar que não preciso de férias. Preciso. De-ses-pe-ra-da-men-te. Preciso de uma semana sem pensar em nada. Preciso mesmo. E espero que ela esteja a chegar.

Ainda da sustentabilidade

Penso muitas vezes no legado que estamos a deixar aos nossos filhos. Não sei se por causa do Duarte ter nascido ou uma consequência natural do que acontece. Assusta-me a enormidade de espécies extintas ou criticamente em perigo, o número crescente de problemas de saúde associados ao nosso estilo de vida, o clima estranho que estamos a ajudar a provocar.

A verdade é que, passando da teoria à prática, nem sempre consigo integrar rotinas sustentáveis no caos do dia-a-dia. Aparentemente, dado o meu estilo de vida, a partir do dia 26 de Abril já estou a usar créditos de planeta. Se toda a gente vivesse como eu/nós... seriam necessários 3 planetas!
Estive a pensar no que estamos a fazer bem e onde há espaço para melhorar.
Lá por casa as compras estão a tornar-se mais conscientes. Dentro do razoável, temos tentado comprar com qualidade, o que é substituído, se estiver em condições é sempre reaproveitado (guardado, dado, vendido, emprestado, arranjado...). A casa tem um bom isolamento e tenho reparado que quase metade da nossa energia vem de fontes renováveis (está descrito na fatura, zero mérito nosso). Tenho tentado estar atenta à origem dos produtos e temos comprado menos. Tenho feito iogurtes em casa, evitado comprar pacotes de bolachas que vêm com mini pacotinhos e até feito pão em casa. Voltamos aos transportes públicos do dia-a-dia e sempre que possível andamos a pé.
Há obviamente coisas que não faz sentido mudar. Não posso deixar de usar o carro alguns km por dia, não quero deixar de comprar livros ou deixar de tornar a minha casa mais bonita (mesmo que isso implique mais coisas). Não vou deixar de comprar t-shirts baratas de origem duvidosa para o meu filho que suja roupa a velocidades super-sónicas. Há muito mais para fazer... Assim de repente, lembro-me de 4!
  • Temos sido incrivelmente preguiçosos com a reciclagem. Fazemos alguma reciclagem, mas os recipientes para reciclar estão pouco "à mão". Não faz sentido, é preciso arranjar uma forma de simplificar o processo.
  • Tenho a sorte de ter uma mãe (e não só) que tem fruta, legumes, carne, ovos de produção própria. Muitas vezes, por pura desorganização compro produtos frescos embalados em vez de usar os da casa. 
  • Lá em casa além de um frigorífico combinado temos uma arca-congeladora. O problema é que a arca está nos arrumos e fruto de muitos meses de horários alucinados, é frequente não nos lembrarmos de usar as coisas que lá temos (ao ponto de estragar comida). Temos que arranjar forma de ter o conteúdo congelado mais "à mão". 
  • Com as eleições à porta seria interessante espreitar se a sustentabilidade nas cidades faz parte de algum dos planos eleitorais. Se bem que nem tenha muito bem a noção do que há a melhorar a um custo "praticável" para as minhas bandas gostava de perceber...
É só uma agulha pequenina. Mas é preciso começar. :) 

Da conversa do créditos ou... é só fazer as contas.

Estou a ser atendida nos correios. Enquanto espero por ser atendida, pego num panfleto sobre Certificados do Tesouro. A funcionária (eficiente e delicadamente) pergunta se quero mais informação sobre os certificados e se quero fazer uma simulação com as atuais taxas de juro. Enquanto mexo na carteira à procura do cartão do cidadão, deixo em cima do balcão o meu cartão de débito da conta CTT. A funcionário do lado decide intervir:

Funcionária Que Não Tinha Nada A Ver Com O Assunto: Ah! É cliente do nosso banco!
Eu: Sim, sou.
FQNTNAVCOA: Ah! Então tenho aqui a oportunidade perfeita para si! Devia aproveitar esta nossa promoção para comprar um telemóvel. 
<Enquanto isto, passa-me um panfleto com um telemóvel em promoção>
Eu: Obrigada, já tenho telemóvel
FQNTNAVCOA: Ah! Mas pode ser para um familiar!
<A sério que a senhora disse isto? Olho para o raio do papel. O telemóvel tinha um preço teórico de 350€ e um novo preço assinalado de 300€. O panfleto destacava mensalidades de 30€. >
Eu: Obrigada, não compro telemóveis a crédito
FQNTNAVCOA: Ah! Mas não paga juros nenhuns!
Eu: A sério que não? E comissões de entrada?
FQNTNAVCOA: São só 12€ extra no primeiro mês!
<Neste momento passou-me tanta coisa pela cabeça... Vários implicavam um sermão à senhora que não tem culpa, eu sei. Nenhum deles... iria mudar nada daquela palhaçada>
Eu: Não compro telemóveis a crédito. Não estou interessada.
FQNTNAVCOA: Pronto, desculpe interromper, mas como vi que era nossa cliente podia querer aproveitar a oportunidade...
Saí dali a pensar no assunto. Surpreende-me que esta conversa ainda funcione com alguém. Não consigo conceber sequer a ideia de comprar a crédito alguma coisa que não seja uma casa ou um carro. Quanto mais um telemóvel. Pior. Uma coisa pela qual provavelmente a pessoa não precisava e custava "só" 300€. E pela qual não pesquisou, não comparou preços, não viu o mercado. A sério que isto funciona? 
 
Que ninguém se esqueça: os bancos não dão nada a ninguém. Os 12€ de abertura de conta significam juros de 4% pagos a 10meses. Desafio quem no momento me conseguir uma conta poupança com esta taxa de retorno.

Mais... se fizermos um bocadinho melhor as contas...

Nenhum banco nos dá os juros no primeiro mês (as comissões de abertura acontecem sempre à entrada). Teremos que ter o nosso dinheiro parado durante algum tempo para vermos esse retorno. Supondo que o juro é pago anualmente, e que ao final de um ano queríamos ir buscar 12€ ao depositar 300€. O imposto sobre os juros, logo à partida é de 28%. Ou seja... para ganharmos 12€ ao final de um ano, teríamos que ter juro que pagassem ao final de um ano 16.67€, o que significa uma taxa de juro de cerca de 5.56%. 

Atualmente os Certificados do Tesouro dos CTT pagam 1.25% ao final do primeiro ano.  Contas feitas... teríamos que depositar 1333.6€ para, ao final do ano, o banco nos pagasse 12€ líquidos por lhe termos emprestado esse dinheiro.

Há mesmo quem ache que existem compras "sem juros"? 

Escrever para não esquecer


Quando nos deitávamos, de janelas abertas para refrescar, ouvíamos os grilos a cantar. De manhã acordava sempre a ouvir os galos a dar os bons dias. O Duarte adormeceu sempre bem, dormiu sempre bem, acordou sempre com um sorriso. "Apesar" de todos os barulhos.

Nos primeiros dias fizemos sestas a três. Nem sabíamos a falta que nos fazia dormir sem horas e relógios. Ao terceiro dia, o descanso já era tanto que acordei com vontade de ir correr enquanto o resto da casa ainda acordava. Fui. Consegui correr 5Km em estrada, pela primeira vez. E ainda lhes juntei uns 3 na caminhada no regresso. 

Acabei de ler 4 livros. Não romances, livros práticos. É verdade que são fáceis e rápidos de ler, mas não deixam de requerer tempo. 

Apanhamos amoras, peras e figos. O Duarte encontrou um sapo, um gafanhoto, e um escaravelho. Delirou com os tratores. Viu alguns desenhos, mas passou a maior parte do tempo longe deles. 

Ia mentalizada para durante quatro dias baixar a guarda e ceder quanto às regras da alimentação. Afinal os avós não conseguem ver o rapaz chorar e ele já sabe aproveitar esse luxo. Não foi preciso muito. Dando-lhe espaço para explorar não há nada que o deixe triste (só deixa os adultos estafados!). Andou muitas vezes molhado, meio nu, quase sempre sujo. Tomou banhos infinitos para logo a seguir se voltar a sujar. Esteve sempre tão feliz. Cedi algumas vezes quanto aos doces. Deixei que lhe oferecessem croissant, bolo e gelado. Numa das vezes abriu o croissant e retirou o queijo. Noutra negou bolo e gelado a favor da melancia. Gostou muito do gelado que era à base de iogurte e fruta (mesmo que carregadinho de outras porcarias extra). Acredito que estamos a fazer um bom trabalho. 

Se o chatearmos muito ele vai soltando palavras. Ouvimos um "não", um "sim", e estou capaz de jurar que ouvi um "Mickey" também. 

Voltamos. Ainda não tinha saudades de casa (e eu que adoro a nossa casa). Preguiça, Praia, Parque. Nunca deixo de me deliciar com o privilégio de ter a praia já ali. E com a sorte de no caminho sempre encontrar um amigo. Fiz doce de pera, gelado e tomate seco. 

Hoje volto ao trabalho. Foram 5 dias incrivelmente bons. Regresso bem dormida, com muitas de ideias e de coração cheio.  

Quase pronto

"Saltas para fora do avião quando eu contar até 5. Pronto?" diz-te o instrutor de paraquedismo, enquanto tu aguardas nervosamente pelo primeiro salto, inclinado num pequeno avião Cessna a cerca de 10 000 pés de altitude. Tu vibras com a adrenalina. E simultaneamente tremes de medo.
"Ok", dizes tu pouco convictamente. "Estou pronto."
O instrutor abre a porta do avião. O ar dispara pela porta aberta e o avião agita-se ligeiramente no ar. O medo torna-se pânico, como se cada célula do teu corpo - tudo o que a Evolução te ensinou - dissesse para não saltares por uma porta aberta de um avião.
"1,2,3..."
Quando o instrutor conta o 4 dispara a arma da partida. Tu pensas que tens mais um precioso segundo para mudar de ideias. Mas ele já te empurrou para fora do avião. E tu vais. Assim, não houve tempo para mudares de ideias no último instante.
Apesar de eu nunca ter feito paraquedismo, disseram-me que esta era uma técnica frequentemente utilizada com pessoas que experimentam pela primeira vez e, por vezes, têm ataques de pânico no último minuto.
Isto lembrou-me de uma conversa com um amigo que aconteceu num bonito dia de Verão há alguns anos em Berlim.
Eu perguntei-lhe se ele se sentia preparado para ter filhos quando o filho dele nasceu. Ele respondeu "Não estava preparado para ter filhos. Mas nós estávamos quase preparados para ter filhos. Quase preparados. Tu nunca te vais sentir completamente preparado."
Isto é verdade para tantas coisas, não é?
Não comeces uma empresa quando te sentires preparado para isso, porque tu nunca te sentirás preparado. Começa a tua própria empresa quando te sentires quase preparado.
Não cases com o teu namorado ou namorada quando te sentires preparado para isso, porque tu nunca terás absoluta certeza que tudo será feito. Casa-te quando te sentires preparado - quando tiveres quase certeza que é A pessoa certa.
Não aceites o trabalho para o qual te sentes totalmente preparado. Desafia-te. Estimula-te. Aceita o trabalho para o qual estás quase preparado.
"Quase preparado" é semelhante à "Regra do 80%" para persuasão. Ronald Reagan defendeu que não é preciso que alguém concorde 100% contigo para estar "contigo" - só precisas que a pessoa esteja do teu lado em 80% das questões. Isto é geralmente suficiente para conseguir o seu apoio.
A Regra do 80% aplicada a nós mesmos significaria que nós não precisamos de estar 100% certos de uma decisão para que esta seja a decisão certa.

Estão esgotados os recursos naturais do planeta para 2017

Dizem as estatisticas que hoje, 2 de agosto, estão esgotados os recursos naturais do planeta para 2017 (isto é, o limite do uso sustentável). Há quase 50 anos que gastamos mais planeta do que devemos e este dia "limite" tem chagado cada vez mais cedo. Se dependesse apenas de Portugal, este dia chegaria ainda mais cedo.

A proposta da Zero aposta numa economia circular, com aposta na reutilização e redução (ter menos mas de melhor qualidade), na redução do consumo de proteína animal e na promoção da mobilidade sustentável. Fiquei a pensar no que posso estar afazer mal e bem.

Lá por casa já usamos transportes públicos na grande maior parte do ano, andamos maioritariamente a pé ao fim de semana e fazemos alguma reciclagem. No entanto... isto é menos que uma migalha para o longo caminho que há a percorrer! Faltam 5 meses para o final do ano, quero introduzir 5 pequenas outras migalhas, uma por mês:
  • Agosto: sou um desastre com os banhos... Água muito quente, muito tempo no chuveiro. É um valente desperdício... O objetivo é encurtar os banhos e aproveitar o calor para me habituar a água menos quente. Além das vantagens para o ambiente, a minha pele e cabelo ainda agradecem.
  • Setembro: Vender, dar, deitar fora, arrumar, organizar. Este é um trabalho em progresso. Preciso de me livrar de tralha. Todas semanas arrumamos um bocadinho. Já há muitas coisas com destino definido, outras tanto vão a caminho.
  • Outubro: Trocar todas as lâmpadas por lampadas led. A maior parte deste trabalho está, na verdade, feito.
  • Novembro: Garantir uma refeição vegatariana por semana. Excluir a proteína animal uma refeição por semana é simples (e uma coisa que na verdade já fazemos algumas vezes).
  • Dezembro: Comprar e cozinhar com consciência. O mês do Natal é sempre um mês cheio de desperdicio (e eu adoro o Natal). Tenho que me esforçar para que todas as compras sejam feitas com mais consciencia. Qualidade sobre quantidade. Oferecer menos "coisas" e mais experiências.
Estes são, claramente, passinhos de pardal. Mas são realistas e um pequeno investimento para manutenção da nossa qualidade de vida e do planeta que deixamos de herança. Alguém se junta?

Inquietudes

Às vezes só queria que o tempo passa-se mais devagar, que o dia tivesse mais horas, ou.. sei lá! 

Tenho conseguido organizar-me razoavelmente bem. Parece-me. Mas não deixo de sentir que ando sempre numa corrida contra o tempo. Levanto-me sempre atrasada, saio sempre mais tarde para o ginásio do que gostaria, o trabalho rende menos do que prevejo (ou estarei a fazer mal as estimativas de tempo?), vou embora mais tarde do que o suposto, estou menos tempo com o Duarte do que quero, consigo fazer menos em casa do que pensei durante o dia, adormeço sempre incrivelmente cansada.

Estou a precisar de parar e organizar. Não sei se são as espectativas que estão erradas, se as ideias que são excessivas, ou outra coisa qualquer.

As férias grandes parecem um objetivo demasiado distante.

O Duarte... o Duarte, o Duarte! Está cada dia mais engraçado mas, raio do rapaz, não fala. E, por muito que possa ser normal, que cada criança tenha o seu ritmo, que eu até tenha prometido a mim mesma dar-lhe sempre o tempo dele depois dos stresses desnecessários com a evolução inicial de peso, é impossível não ficar, um bocadinho que seja, preocupada. Ele expressa-se lindamente, há vários motivos que possam atrasar a fala mas... Nasceu com ele esta minha capacidade de estar preocupada com ele. Inevitável.

Comprei um montes de livros "práticos" que quero ler, tenho tantas ideias para por em prática, o dia voa, o fim de semana corre. Nada Hygge esta minha forma de estar! :)

E um botão para Reset, há?

A escola que temos

Por fim, há um problema que atravessa todas as disciplinas e que se prende com os métodos de ensino. Já li bastantes artigos sobre isto, não estou a inventar a pólvora, mas a verdade é que estamos a ensinar os miúdos em 2017 com métodos do século XIX. E se no nosso tempo a coisa já era uma seca, imagine-se agora, com putos que cresceram com mil canais de televisão e internet nos computadores e vivem com um telefone permanentemente nas mãos. É muito mais difícil captar a sua atenção e motivá-los. Por outro lado, sinto muitas vezes que não estamos a preparar estes miúdos para o futuro. Fazêmo-los decorar coisas e mais coisas mas não os ensinamos a ver o mundo. Estamos a dar-lhes uma série de conhecimentos obsoletos e banais, a fazê-los decorar coisas de que, na realidade, eles não vão precisar nunca mais (assim como assim está tudo no google), em vez de lhes darmos verdadeiras competências para o mundo real.
(...)
Finalmente, e esse é o último elemento que entra nesta equação: para que é que isto tudo serve? Quando era miúda, ouvi muitas vezes o discurso do tens de estudar para ser alguém. Ou, pelo menos, para ser aquilo que eu sonhava ser. Acreditava-se que os estudos abriam portas, portas que estavam vedadas a quem não trabalhasse o suficiente na escola e que nos iriam conduzir a uma vida melhor. Hoje em dia, apesar de eu ainda acreditar que estudar abre mesmo muitas portas - na cabeça e nas vidas das pessoas - é muito mais difícil conseguir convencer os miúdos disto. Todos os dias eles têm exemplos de pessoas que não estudaram nada e conseguiram ter sucesso (na televisão, na internet, no desporto...) , e também vão encontrando pessoas que estudaram mesmo muito e com resultados excelentes e não conseguiram fazer grande coisa da sua vida. Assim fica mais difícil a tarefa de uma mãe.

Ando a digerir este texto da Gata há alguns dias. O tema "educação" é mais um dos que me tornei sensível depois do Duarte. E por longe que ainda estejam estes tempos para "o meu", tenho sempre uma grande angústia ao pensar no que estamos a fazer às nossas crianças. 

Olho para o ensino e parece-me estar tudo errado. Da-mos péssimas condições de trabalho aos professores, enfiamos 30 crianças numa sala e trocamos os professores anualmente (como se espera que conheçam os miúdos assim?). Acrescento ainda que, pelo que me parece, temos cada vez mais professores que escolhem a profissão porque "é o que sobra". Sem qualquer gosto ou vocação. E esta maravilhosa ideia dos centros escolares. Pré-primária e primária juntas, centenas de crianças pequeninas na mesma escola. Adeus conceito "familiar". 

Conheço dois casos muito próximos em que vejo as injustiças do modelo de ensino. Um miúdo com uma boa cultura geral, inteligente e interessado mas com graves problemas de auto-confiança acaba o ano com uma catrefada de 3 na pauta e até uma negativa. O outro, um grande vendedor de banha da cobra, mentiroso, cheio de atalhos, consegue decorar muito mas não compreende nada, sabe vender-se lindamente. Resultou em muitos 4. "Exemplar". Não consigo explicar a agonia que isto me provoca. É claro que acredito que a longo prazo seja o primeiro miúdo que vá ter mais sucesso. Preciso de acreditar nisso mas... parece tudo muito trocado.

Gostei tanto de andar na escola, gostava tanto de saber transmitir este gosto para o Duarte. Gostava que ele percebesse que a matemática não é difícil, os números encaixam todos, dançam tão bem. Queria que ele compreendesse que a História é importante e que saber os porquês da Ciência não são uma seca sem sentido.  Não sei como se passa tudo isto e tenho mesmo medo de falhar. Resta-me não me esquecer de tentar sempre. .

Esta coisa da Internet

Disseram-me "tenho saudades de ler novidades tuas", respondi "tenho saudades de escrever". 

Tenho mesmo. Ainda não percebi muito bem a minha posição nesta coisa dos blogues ou da Internet, mas a verdade é que gosto de escrever e gosto de estar por aqui. A "rede" trouxe-me pessoas muito importantes para mim. Trouxe vários amigos, daqueles que até me fizeram comprar um sofá-cama para ter à disposição. Daqueles que, apesar de estarem geograficamente muito perto eu provavelmente não conheceria sem o blogue (olá Martinha, vamos beber uma limonada?) e até um a quem eu decidi dizer sim no altar. Gosto de ver novidades das minhas pessoas e acho que, bem utilizada, é a melhor invenção depois da roda. 

Mas às vezes... às vezes sinto-me cansada da Internet. Das casas imaculadas, das ideias sempre felizes, da cultura do perfeito, do efeito rebanho. Hoje está na moda do minimalismo. Ontem estava o vintage. Amanhã sobre o que será que todos querem falar? Não que não concorde com algumas ideias, concordo. Não que ache que seja suposto estarmos sempre a falar de coisas más, não acho. Nem sequer há vontade para escrever nos dias maus. Mas o que me cansa, é a repetição, o "mais do mesmo", os conceitos para vender. Voltando a isto, tenho mesmo que rever os conteúdos que sigo.

Ai que estou farta da chuva. Ai que não se pode com o calor. Olá Junho! Olá Novembro! Be Sweet! #hashtag #somostodos #englishisthenewblack 

Se calhar sou eu, uma velha do Restelo, facilmente irritável. Ou cansada. Há dias em que admito que não gosto muito de pessoas. 

Onde é que eu ia? No blogue, escrever. As ideias. Este blogue já teve vários propósitos, mas não deixa de ser uma caixa de ideias minha. Tenho que o voltar a encaixar nas minhas rotinas, porque em ajuda a estruturar as ideias e porque, surpreendentemente, até parece que há quem goste de ler às vezes. Vamos lá ver...

E se deixasseemos as crianças serem crianças?

imagem algures no Pinterest
Ontem conversava com umas amigas (caramba, vejo a nossa "adultez" na quantidade de amigas com filhos que tenho!) sobre programas curriculares. Odeio ouvir falar em planos curriculares, em objectivos, em fichas de acompanhamento quando se trata de crianças tão pequenas. Mais... eu acho que mesmo a escola primária (não gosto de dizer primeiro ciclo ok?) deveria ser levada ainda a brincar.

Não sei até quando conseguirei "proteger" o Duarte desta pressão. Tenho a sorte de o poder deixar com os avós e quero aproveitar esta lotaria ao máximo. O rapaz pode ser índio à vontade, e isso deixa-em tão feliz. Dorme ao ritmo dele, passa muitas horas ao ar livre, e suja-se. Suja-se MUITO. É verdade que se estivesse uma cresce talvez já falasse um pouco mais mas muito provavelmente não saberia apanhar morangos nem gostaria de receber beijos nojentos das cadelas. Acredito que uma criança precisa para ser saudável (física e mentalmente) é muito pouco. Tento fugir das metas. Não quero saber (ou pelo menos se parar para pensar sei que não quero) o que "é suposto ele saber fazer com esta idade". A informação, o contacto, a sociedade, está a tornar-nos tão assustadoramente exigentes!

"Com esta idade, ele já deveria saber falar mais, já devia saber cores, já devia...". Não, não acho que devia. Talvez até eu lhe conseguisse ensinar mas... o que estaria ele a perder? Isto não é uma corrida, não é desta infância que eu me lembro. Confesso-me fascinada pela Pedagogia Waldorf. Adoro a ideia de se respeitar o ritmo, de se ensinar por desafios, por contacto, pela liberdade, pelo mundo. Claro que tudo isto é muito difícil. É preciso professores preparados e vocacionados. É preciso turmas pequenas, escolas com muito espaço. Não acho que seja fácil integrar tudo isto no sistema público e sou totalmente a favor do ensino público.  Não sou fundamentalista e também não tenho a certeza de como funcionaria a integração. Nem sequer tenho uma escola destas a uma distância real.

Não sendo uma realidade para mim (ou muitos de nós), acho cabe  fazermos a nossa parte. Deixa-los ser crianças. Não dramatizar com metas. Deixa-los sujar-se na terra, correr, cair. Leva-los a passear, ao parque, à praia, ao jardim. Viajar, mesmo que perto. Há sempre coisas diferentes para ver. Dar muito tempo para brincar. Conversar, dar tempo de qualidade (mesmo que infelizmente pouco). Dar-lhe liberdade para escolher mas impor regras, limitar gadgets. Deixa-los ser crianças. Para ser adulto há muito tempo...