Não Há Mimo A Mais

janeiro 27, 2017 Vera Francisco 0 Comments



Mimo

Dizia ontem a uns amigos que o segredo para sermos bons pais é só não complicar. Ser mãe não é complicado, NÓS humanos (ocidentais?) somos complicados.
Sou um pessoa trabalhada para lógica. Gosto muito de prever o que vai acontecer e planear planos B e C caso alguma coisa corra mal. Sou até um bocadinho resistente a mudanças grandes. Ora... isto é muito bom para lidar com máquinas, não com gravidezes, cheias de variáveis.

Quando decidimos ter um bebé, fiz tudo o que seria suposto: consultas, análises de rotina, aplicações no telemóvel, suplementos de ácido fólico três meses antes de começar a tentar. Engravidei na primeira tentativa. Fiz o teste, marquei um exame mal vimos o postivo. Fiz uma ecografia às 5 semanas (demasiado cedo). Nova ecografia às 8 semanas (aqui, o embrião já terá batimento cardíaco e clinicamente é a altura certa para poder começar a "ver" alguma coisa). Esta ecografia mostrou um embrião sem batimentos. Tudo bem. Já tinha entretanto lido que cerca de 25% das gravidezes não evoluem, eu estava nesses números por isso vamos lá tratar disto. Expliquem-me o que é preciso saber e fazer. Fiz o que havia a fazer. Geri os dramas externos a nós. Esperei novamente. Engravidei novamente no primeiro mês de tentativas.

A minha gravidez foi muito fácil. Pouco desconforto, um bebé a evoluir bem, uma mãe a sentir-se sempre normal. Nunca senti uma empatia extrema com o meu bebé. Estava feliz, era mesmo aquilo que queríamos, adorei ver a minha barriga crescer mas nunca senti estrelinhas nem vi corações a florescer.

Um vez mais fiz o que estava ao meu alcance para me preparar. Li vários livros sobre o assunto, pesquisei o que precisava ou não efectivamente de comprar e vi testes comparativos, fiz listas intermináveis no Excel, fiz todos os exames e mais alguns, preparei um quarto lindo, entrei num grupo de mães no Facebook e inscrevi-me num curso de preparação para o parto e parentalidade (CPPP). E foi aqui que comecei a ouvir coisas que me fizeram começar a ver as coisas de outra forma.

Primeiro de tudo: comecei a perceber que estes cursos não deveriam ser precisos para nada! Pela primeira vez, apresentaram-me uma série de conceitos que tocaram em alguma parte de mim menos matemática... Acho que só ali comecei a ouvir coisas que faziam para mim algum sentido. O curso foi um ENORME arruinar de mitos que eu tinha mais que enraizados e não questionados.

Não há mimo a mais, não há colo a mais, não há leite materno "fraco" ou "pouco", não há problema em ter um bebé a dormir no quarto dos pais, há poucos medicamentos que interfiram com a amamentação, os partos não precisam de ser mecanizados, nem tudo se resume a "cólicas", contraceptivos hormonais não são a última Coca-Cola no deserto. Oi? Como assim? A sério? Afinal, quem me estava a passar todas estas ideias, muito bem fundamentadas e explicadas, era uma enfermeira num Centro de Saúde e parecia que tudo estava a fazer muito sentido para mim. Mas, mas, mas?

Comecei a procurar mais sobre estas ideias e a questionar outras tantas. Há muitas explicações e há muito a dizer sobre qualquer uma delas.

Li o Bejame Mucho do Carlos Gonzalez. Os livros da Constança Cordeiro Ferreira. Encontrei conceitos de Parentalidade Positiva. Encontrei o BLW, descobri as ideias de Montessori. Comecei a estar mais atenta a ao que algumas amigas do tal grupo das mães me diziam e que eu achava "demasiado hippie style para mim".

O Duarte nasceu e com ele chegou aquele amor incondicional que durante toda a gravidez eu tive medo de não aparecer. E chegou o instinto e a percepção do que quero ou não para ele.

Ouvi todas as coisas espectáveis.
"Estás a dar colo a mais, ele vai ficar mal habituado". Sorria. Algumas vezes explicava que não, que não há colo a mais. Que os bebés precisam de colo e de segurança. Que a própria selecção natural eliminou aqueles que não precisavam de contacto. Que eu não deixo NINGUÉM de quem gosto a chorar sozinho, muito menos um bebé indefeso.
"Estás a dar mama a mais". Ora vamos lá... não há mama a mais. O bebé tem um estômago pequenino e digere muito rápido, está a crescer a ritmo alucinado e aprender muitas coisas. Pode precisar de comer MUITAS vezes por dia. A mama não é só comida, também é conforto, é mimo! Ele pode ter dores, pode estar assustado ou confuso. Sim... reconforto. No limite, a mama é o liquido que mata a sede. Negam água a alguém?
"O teu leite é fraco, devias dar leite adaptado para ele engordar". O Duarte teve, efectivamente, uma adaptação ao mundo complicada. Demorou muito tempo a ganhar peso. Acabei por ter que introduzir suplemento aos 3 meses que continuou a não contribuir para o aumento de peso espectável. Chegamos a fazer análises, estava tudo bem. O leite de fórmula é uma óptima alternativa não havendo outras soluções, neste caso havia e EU QUERIA amamentar. Não correu da forma ideal, mas foi preciso um grande finca pé meu para não o introduzir nos sólidos antes dele estar preparado. Hoje tenho um gorducho que adoro comer, brócolos, sopa, fruta incluídos. Vamos combinar uma coisa... Não digam a uma mãe que quer amamentar, que tem um filho saudável, reactivo e sorridente que o leite de uma vaca é muito melhor para ele do que o leite dela. Não é.
"O bebé TEM que ir para o quarto dele". Tem? A sério? Como é que a humanidade sobreviveu tantos séculos em casas de uma só assoalhada com toda a gente a dormir ao molho? Somos uma cambada de traumatizados? Porque é que alguém tem intervir sobre quem é que dorme no MEU quarto? Eu dormi no quarto dos meus pais durante anos e estou aqui fresca, fofa e muito normal.

Já passou mais de um ano desde que o Duarte nasceu. Tenho um bebé que gosta muito menos no colo do que eu gostaria de lhe dar, mas tenho pelo menos a consciência que lhe dei todo o que podia e que ele pediu. Mama antes de dormir e 1 ou 2 vezes durante a noite. O normal para ele. Acho, como a maioria dos pais acha (e ainda bem), que estamos a fazer um óptimo trabalho.

Tenho imensas saudades do meu bebé pequenino mas estou a adorar cada fase e melhor... Estou a aproveitar cada momento muito bem (dentro das poucas horas que tenho para estarmos juntos). Por vezes apetece-me adormecê-lo na nossa cama e ele fica por lá. Outras noites só vem quase de manhã. Trabalho e continuo a amamentar. Já estive dois dias longe do meu bebé. Dou-lhe todo o mimo do mundo quando estou com ele. Os avós, quando não estou, fazem o mesmo. Há agora novos desafios a começar: começa a expressar a vontade dele, é preciso impor regras, estabelecer limites e por vezes, como é normal, tudo isto é cansativo, desesperante.

Não sou contra os hospitais, o leite adaptado, ou bebés a dormir sozinhos no quarto deles. Felizmente temos a ciência ao nosso lado para nos dar todo o apoio necessário. Sou contra profissionais de saúde mal informados e donos da razão. Ou vizinhos do lado. Ou quem quer que seja.  Sou a favor de ouvirmos o que nós pais achamos certo para o bebé. É isto que devíamos todos fazer, dizer aos pais que aquilo que eles SENTEM que está certo. Dizer-lhes que devem ouvir os bebés deles e fazer o que o instinto deles lhes diz. Não há uma fórmula única e só uma resposta certa. Somos todos tão diferentes. Não é possível "avariar" um bebé. Um bebé muito pequenino não tem manhas, nem sequer tem o cérebro suficientemente desenvolvido para ter mais do que reflexos/instintos. O amor não estraga ninguém. Nem a segurança ou o respeito.

Mimo

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